O sucesso foi tão grande que o grupo precisou sair de dentro da igreja para o salão paroquial, que tinha o espaço duas vezes maior, onde a encenação permaneceu sendo apresentada por 19 anos. Foi aí que Arildo teve uma nova ideia: fazer da peça uma superprodução, ao ar livre. Buscou patrocínios e apoios e conseguiu, em 2002, concretizar o sonho, pela primeira vez, no Centro Cultural de Barcarena. Novamente, a repercussão foi estrondosa. “Acho que isso aconteceu porque foi algo diferente. Nunca ninguém tinha feito um espetáculo tão grandioso como esse aqui no Pará”, conta.
Mesmo sob uma forte chuva, o grupo Chama de Teatro, do município de Barcarena, nordeste do Estado, abriu, na noite desta quinta-feira, 17, a temporada 2014 do espetáculo “A Paixão de Cristo”, encenado há mais de 30 anos no local. Pela primeira vez, a montagem acontece em um espaço totalmente aberto, na praça matriz da cidade, em frente à igreja de Nossa Senhora de Nazaré. Nem mesmo o temporal impediu que, na estreia, um público expressivo se concentrasse em frente aos vários cenários montados para contar os últimos dias da vida de Jesus Cristo, numa bela demonstração de fé e de respeito à arte paraense. “É muito bonito, mágico mesmo. Me sinto uma privilegiada em poder acompanhar tudo isso de perto”, disse a professora Lúcia Vaz, que levou os dois filhos pequenos para assistir à apresentação.
O diretor e idealizador do espetáculo, Arildo Poça – que também interpretou o personagem principal, Jesus, por muitos anos –, conta que a ideia da encenação surgiu por volta de 1980, quando ele era membro de um grupo da igreja católica de Barcarena e atuava como narrador da Paixão de Cristo durante as celebrações típicas da época. Também estudante de teatro, o jovem Arildo imaginou que uma peça de teatro, contando essa importante passagem bíblica, poderia chamar ainda mais a atenção da comunidade cristã para o momento. Assim, conversou com o pároco local e montou o espetáculo, que, àquela altura, reuniu um elenco de pouco mais de 30 pessoas.
O apoio do governo do Estado ao espetáculo continua, por meio de órgãos como a Secretaria de Estado de Turismo (Setur), Bombeiros, Polícia Turística e Departamento Estadual de Trânsito (Detran), que se fazem presentes durante todos os dias em que a encenação é realizada. “Nos sentimos muito gratos ao governo do Estado, por todo o apoio e atenção que nos são dados ao longo de todos esses anos”, destaca Arildo.
Aliás, para quem quiser conferir a superprodução, a montagem será apresentada até o próximo domingo, 20, a partir das 20h, na praça matriz de Barcarena. O grupo cobra ingressos simbólicos no valor de R$ 1, mas quem desejar poderá contribuir com valores mais altos. Todo o dinheiro arrecadado será destinado à construção da cidade cenográfica do espetáculo, um sonho antigo da comunidade, que já está se tornando realidade.
Arildo Poça conta que um terreno de dois hectares foi adquirido, na entrada da cidade de Barcarena. A ideia é fazer, no local, algo parecido ao que acontece em Nova Jerusalém, Pernambuco, onde a encenação da Paixão de Cristo tornou-se uma importante mola propulsora da economia local, por meio do chamado turismo religioso. “Além da atração de pessoas, queremos que esse espaço possa ser referência não só durante a Semana Santa, mas no ano todo, que seja algo que ajude a mudar a sociedade, através, por exemplo, da oportunidade de preparação e descoberta de novos artistas, como já estamos fazendo com o grupo Chama”, enfatiza.
A possibilidade enche de alegria e expectativa pessoas que se dedicam ao trabalho há anos, como é o caso de Enéas de Oliveira, 72. Há mais de 10 anos, quando se aposentou, ele foi convidado para participar do espetáculo pelo diretor Arildo Poça. Aceitou o desafio e não saiu mais. Ao longo desse tempo, já participou até de um filme produzido em Barcarena. “Para mim, essa chance foi o que de melhor aconteceu na minha vida. Sou mineiro e vim para o Pará há 29 anos, abracei essa terra com todo o coração. Então, poder dar a minha contribuição para a cultura local é motivo de muita alegria e estou pronto para continuar em atividade ainda por muito tempo”, diz ele, que dá vida, no espetáculo, ao sumo sacerdote Caifás.
Técnicos da Secretaria de Estado de Turismo (Setur) e da Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo do município de Barcarena estarão acompanhando, até domingo, 20, a temporada do espetáculo para analisar de que forma os dois órgãos poderão ajudar a concretizar o projeto da cidade cenográfica.
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